Sempre gostei de Yoga, apesar de ter feito um curso exaustivo, há dezenas de anos, talvez centenas, com um sujeito chato pacas, o tal De Rose, que ficava puto quando a gente dizia Yoga, com o “o” aberto, som de ó. Era Yôga, porque isso, porque aquilo, era a marca registrada dele.
No Recife, fiz uns dois anos, ali no Ubaia´s Center, mas começou minha louca vida de professor universitário, dono de bar e metido a escritor, a Yoga com som aberto foi cancelada por um tempo. Aliás, por muito tempo.
Ontem, foi o dia de voltar. Eu gosto dessas coisas. Adoro meu futebol dominical, mas gosto de Yoga, aprecio a meditação, essas coisas da lentidão. Já sei que o Magro Valadares vai gritar – “Mais freeesco”. Ossos do ofício.
Às 18h05 de ontem estava na Conde da Boa Vista. Objetivo – pegar um ônibus, descer na Praça do Entrocamento, caminhar rumo à rua das Graças, onde funciona a Sádhana Yoga.
Antes, preciso fazer um depósito de uma filmagem que um camarada fez pra mim, R$ 150,00. Pego dinheiro no Real, vou ao Banco do Brasil. Descubro que a recente reforma da avenida Conde da Boa Vista transformou o local em um ponto de assassinos. Nos dois lados, ônibus passam fazendo “ziu”, “ziu”. Na faixa de pedestre, você corre mais risco do que os caras do globo da morte, do circo Thiany. Quando o sinal abre, trate de correr, são 15 segundos, creio, e uma multidão indo e voltando. Qualquer dia, vão morrer 15 de uma vez, um para cada segundo.
Chego ao Banco do Brasil. A conta era no Itaú. Volto para onde estava, sobrevivo a mais um atropelamento e vejo o comércio pirata de DVDs. São milhares, a R$ 2,00. Finalmente deposito. Estou livre.
Às 18h15 estou dentro do Alto Santa Isabel, da Transcol, e lembro do amigo Lucimério, dono da empresa. Vou ver se consigo um passe fácil gratuito até o final de ano, a título de cortesia. Eu sempre falo da Transcol. Isso já está dando na cara – merchandising.
O ônibus não está cheio. Entro, olho meus comparsas de coletivo. Somente um sujeito lê algo. Aperto os olhos e vejo – é um livro.
Ao meu lado esquerdo, um casal jovem, ela grávida. Estão gozando no celular. Olham este tótem. Toca uma música horrível, de origem fácil de identificar – uma das 3.457 bandas brega de Pernambuco ou do Pará. Não olham para mais ninguém. Estão hipnotizados. Puxo meu livrinho, começo a ler, mas faz calor, melhor mesmo é reparar o povo, alguma condição atmosférica nova, uma clarabóia qualquer neste anoitecer recifense. Atrás do casal do celular, um jovem de cabelo raspado escuta música o celular também. Escuta mais alto. Não sei o que é isso. As pessoas de mal gosto fazem questão da supremacia, do domínio. Nunca vi um sujeito botar uma Billie Holliday, um Bach, um Paulinho da Viola, na maior altura. As pessoas de bom gosto são sempre mais discretas.
Uma senhora, no banco de trás, atende ao celular. Escuta algo e se irrita:
“Você está onde? Onde? Vá para a casa de sua avó agora, entendeu? Agora!”
Acho que o outro lado da linha entendeu. A mulher desligou.
O brega corre solto. O motorista vai cortando feito uma moto. “Ziu” “Ziu”. Passamos Conde da Boa Vista, vem o pior. Passar defronte ao Americano Batista, cruzar a Agamenom Magalhães e virar à direita, entrando na Rosa e Silva. Isso tudo compartilhado pelo desejo obsessivo de seguir o mesmo caminho, de milhares de pessoas em seus carros. Milhares de impaciências em quatro rodas.
A cada parada, mais gente vai entrando. Uma mulher está com seu filho pequeno no colo, chega outra, começa a brincar com o menino. Tchuco tchuco tchuco. O menino começa a rir, as mulheres começam a começar, já viram irmãs. Tchuco tchuco, o pirraia já muda a cara do ônibus, eu já nem escuto mais o brega. Se fosse comigo, eu ficaria puto, porque detesto esse negócio de tchuco thuco.
Lá pelas tantas, cruzamos a Agamenom. Desço na parada do Clube Português, onde outrora fiz natação e sauna uma vez por semana. Sobe aquele cheiro inconfundível de batata frita na hora, vendido aos quilos pela cidade. Vou andando. Pocot, pocot, pocot. Sigo pela Rui Barbosa. Passo na frente da Casa dos Frios, penso em comprar um vinho mas reflito - poxa, no dia da primeira aula de Yoga, o cara já pensa em vinho? Deixo para depois.
Finalmente chego ao Sádhana. Toco a campainha. A moça atende.
“Vim para minha primeira aula”.
O portão abre. Um oásis no meio da correria da cidade. Um sino toca do alto de uma árvore, aqueles sinos de bambu, ao sabor do vento. Tudo simples, bom, uma casa agradável, cheia de plantas bonitas, bem cuidado. Pago o mês, a taxa, vou ao banheiro, troco de roupa, bebo água. Daqui a 15 minutos, estarei de volta à Yoga.
Estava lendo e querendo cochilar, quando a professora Maristela apareceu, dando um boa noite jovial.
“Vamos começar”.
Fomos para uma sala ampla, confortável, uma música deliciosa ao fundo. Antes de entrar, tem uma torneirinha, para o sujeito lavar os pés. Foi a minha sorte. Lavei, enxuguei (tem uma toalhinha para o serviço), antes de começar a aula.
Foi uma hora preciosa, que espero voltar sempre. Depois dos ásanas, respirações, do relaxamento, a pessoa sente tudo funcionando bem.
Encerramos com o tradicional “Namasté”. Só não teve o “Ommmmmm”. Acho que deve ser outra escola de yoga.
Fui saindo, fechei o portão. Estava bem sossegado, como fico depois de um bom jogo nos Caducos, aos domingos. O Recife já estava bem mais sossegado. Nisso passa um casal por mim.
“Mas tu és muito tabacudo mesmo, não escutasse o que eu te disse naquela hora?”, esbravejou a moça.
“Mas…” – tentou o rapaz.
“Só sendo muito tabacudo mesmo”, prosseguiu ela, irritadíssima, gesticulando bastante, uma moça sem modos, para meu gosto.
Mas isso já não me interessava para nada.
Texto publicado originalmente no blog www.estuario.com.br
Namasté
2 comentários:
Meu caro Samarone, vivo pelas madrugadas a descobrir coisas que me interessem, inclusive pela internet, e como estou interessada em fazer Yoga me deparei com seu texto que achei muito interessante e me levou a fazer contato com o Sádhana, mas o que eu queria lhe dizer que caso vc não queira caminhar muito e esteja com vontade de diminuir o seu percurso vc tem a opção de apanhar o ônibus "Torre - Rui Barbosa" e vc descerá na rua das graças, muito pertinho de suas aulas. Mas, cuidado não confunda com o "Torre Beira Rio" ou "Casa Amarela Nova Torre", tem que ser o "Torre Rui Barbosa", que para na Guararapes na frente dos Correios e segue pela conde da boa vista. Boa Sorte e nàmastê!
Professora, vi agora meu texto no seu blog.
Namastê.
samarone
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